APÓS DENÚNCIAS de concessão de seguros rurais subsidiados a fazendas e produtores com histórico de infrações socioambientais, empresas seguradoras que operam no Brasil contam, desde 2025, com uma ferramenta para a avaliação de riscos de possíveis clientes.
É o que disse à Repórter Brasil Cláudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), durante o evento “Riscos climáticos e o setor segurador: como ampliar a resiliência do Brasil?”, realizado na última quinta-feira (6) em São Paulo (SP).
O encontro, organizado pela CNseg e pelo iCS (Instituto Clima e Sociedade), integrou a programação oficial da São Paulo Climate Week e do World Climate Summit LATAM.
“Através da ferramenta lançada em 2025 pela CNseg, as seguradoras podem consultar várias bases de dados, incluindo sobre terras indígenas e o MapBiomas [rede que produz mapeamentos de cobertura e uso da terra]”, disse Prates. Segundo ela, “há muitos anos” a sustentabilidade está na agenda do setor de seguros. “As empresas evoluíram muito ao longo do tempo. Está todo mundo muito preocupado e olhando para essas questões”, pontuou.
ASSINE NOSSA NEWSLETTER
Investigações publicadas pela Repórter Brasil ao longo de 2024 revelaram como grandes multinacionais do setor seguraram lavouras ilegais no Brasil, dentro de fazendas com áreas embargadas por desmatamento ilegal ou sobrepostas a territórios indígenas, onde o cultivo por não-indígenas é proibido.
As reportagens também mostraram como seguradoras garantiram apólices para produtores rurais flagrados utilizando mão de obra análoga à escravidão e incluídos na Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal que torna públicos os dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas pela prática.
Em todos os casos investigados, a contratação do seguro rural era subsidiada com dinheiro público por meio do PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural), do Ministério da Agricultura e Pecuária. À época, o programa carecia de regras claras para o monitoramento socioambiental dos produtores beneficiados.
Regras para o seguro rural

Em dezembro de 2025, uma resolução do Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural definiu condições socioambientais para apólices contratadas pelo PSR. A norma entrou em vigor em 2 de janeiro de 2026.
A resolução veda o subsídio quando houver supressão de vegetação nativa após 31 de julho de 2019, salvo em caso de autorização do Poder Executivo. Também cria checagens adicionais para a área objeto da apólice, impedindo sobreposição com florestas públicas tipo B não destinadas – áreas sob domínio do Estado, mas que ainda não tiveram destinação oficial – e com áreas embargadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), além de proibir apólices quando proprietário e proponente estiverem na Lista Suja do trabalho escravo.
São as seguradoras que devem incorporar esses critérios na avaliação de risco de uma proposta de seguro. A apólice deverá prever, ainda, a obrigação de que o segurado informe eventual descumprimento durante a vigência do contrato. Seguradoras e segurados podem sofrer sanções se houver desrespeito às regras da resolução, inclusive por reclamações ou denúncias de terceiros.
Também participante do evento sobre riscos climáticos e o setor segurador da última quinta-feira, Fátima Lima, diretora de Sustentabilidade da Mapfre, disse à Repórter Brasil que a empresa tem uma estratégia de sustentabilidade que analisa o perfil do potencial cliente. “Nossa área rural passou por um processo de qualificação, educação e revisão dos nossos processos internos, e hoje estamos 100% adequados a todas as normas de boas práticas ambientais”, afirmou.
As investigações da Repórter Brasil mostraram que tanto a Mapfre quanto a Brasilseg (joint venture da Mapfre com o BB Seguros, do Banco do Brasil) haviam concedido seguros, com uso de recursos públicos do PSR, a produtores com histórico de infrações socioambientais (leia aqui na íntegra as respostas enviadas pelas empresas na ocasião).
Segundo Lima, as próprias seguradoras devem buscar informações adequadas para subsidiar suas decisões sobre a concessão de um seguro.
25 anos investigando para mudar.
A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.
Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!
Leia também
The post Após denúncias, seguradoras criaram ferramenta para evitar seguro a desmatadores, diz representante do setor appeared first on Repórter Brasil.