A movimentação pendular entre extrema direita e o campo progressista é a essência do cenário político mundial nas últimas décadas. Na América Latina, o fenômeno pode ser lido a partir da ascensão e queda da chamada “onda rosa”, nome dado à chegada de presidentes alinhados à esquerda na maior parte dos países simultaneamente.
Nesse contexto, a primeira onda rosa foi observada no começo dos anos 2000, com expoentes como Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Hugo Chávez (Venezuela), Néstor Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), entre outros. Na década de 2010, também houve continuidade, foi neste período, por exemplo, que Pepe Mujica governou o Uruguai.
Após a pandemia, o continente viveu mais um momento de vitórias progressistas, considerada a segunda onda, com Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile), Claudia Sheinbaum (que sucedeu López Obrador no México) e o retorno de Lula.
Agora, em 2026, o cenário político é totalmente diferente. Após o resultado das recentes eleições no Peru e na Colômbia, a maior parte do continente está alinhada aos valores da extrema direita.
Keiko Fujimori, filha do ultradireitista Alberto Fujimori, está na frente no pleito peruano, enquanto o midiático advogado Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia com um discurso inspirado na política de segurança pública disseminada por Nayib Bukele, representante da direita em El Salvador.
Fujimori e Espriella são recém-chegados a um bloco que tem Antônio Kast (Chile), Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador). Dessa forma, a eleição presidencial no Brasil ganha uma dimensão ainda maior, já que a influência econômica e política do país na região é grande.
Neste sábado (27), o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, participou de uma manifestação na capital, Lima, para contestar o resultado eleitoral junto a apoiadores, ativistas e representantes do partido Juntos pelo Peru, que apontam a possibilidade de fraude na contagem dos votos computados de peruanos no exterior. Apesar do segundo turno das eleições no país ter ocorrido no início do mês, o resultado final será divulgado somente na próxima sexta-feira (3).
Na Colômbia, na última quarta-feira (24), Iván Cepeda, reconheceu a derrota nas urnas em um resultado que explicita a divisão interna do país com apenas 250 mil votos de diferença entre os candidatos.
O caso colombiano
Sobre a escolha por Abelardo de la Espriella, o professor colombiano na área do Direito na PUC em São Paulo, especialista em Relações Internacionais, Pietro Alarcón afirma que o novo governante “representa uma corrente de extrema direita cuja filosofia é a solução dos conflitos sociais a partir da criminalização das resistências populares, estigmatização das lideranças e da tentativa de impor por meio da força um modelo econômico e político que claramente assume um viés autoritário”.
“O processo de paz na Colômbia, estabelecido em 2016, é um triunfo da luta popular que produziu um acordo reconhecido pelo Estado colombiano e internacionalmente pelas Nações Unidas. Houve um conjunto de reformas democráticas para gerar e consolidar um ambiente de paz. Agora isso está em risco, com Espriella é possível ter um retrocesso nesse assunto”, comenta Alarcón.
Segundo o professor, existe uma grande preocupação com a chance de reversão das políticas implementadas no salário mínimo, que teve um reajuste de 23% com Petro, das pensões dos aposentados, programas de alimentação escolar e reforma agrária.
Para Pietro Alarcón, é necessário que haja unidade entre as bancadas do Congresso e os movimentos sociais em uma aliança tática para manutenção das conquistas do governo de Petro e uma maneira de fortalecer uma resistência estratégica para que o Pacto Histórico, partido da esquerda, possa retomar o governo nas próximas eleições.
Admirador assumido de Donald Trump, o novo presidente da Colômbia, chamado de ‘El Tigre’, naturalizado norte-americano e filiado ao partido Republicano, já anunciou medidas como a redução do papel do Estado, tolerância zero no tema da segurança pública e a abertura para a exploração estrangeira no setor de petróleo.
Brasil
A posição progressista do Brasil, que destoa do restante do mapa, é vista como estratégica do ponto de vista da resistência ao conservadorismo, principalmente, após as recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na terça-feira (23), Trump publicou um texto em sua rede social afirmando que o país representa seu próximo desafio no continente. Reafirmando a posição de “potência política da região” do Brasil, o presidente norte-americano apontou que a eleição de outubro será “a mais importante do hemisfério” e que se a direita vencer o mapa da América do Sul será totalmente diferente do que era há apenas uma década.
Apesar de um encontro recente entre Trump e Lula, considerado um sucesso para a diplomacia brasileira, após as movimentações em favor de Flávio Bolsonaro, a relação esfriou, resultando em declarações sobre o assunto de ambos os lados na reunião do G7. Trump afirmou que o Brasil “se tornou um pouco difícil” e “politicamente perigoso”, enquanto Lula disse que espera que a soberania entre as nações seja respeitada.
O professor Pietro Alarcón destacou a divulgação dos documentos de atualização da política externa dos Estados Unidos, o que ficou conhecido como Corolário Trump ou Doutrina Donroe, uma nova forma da imperialista Doutrina Monroe, que visa impedir o avanço da influência de países como a China na América Latina.