
A reta final das eleições de 2026 escancarou duas formas radicalmente opostas de fazer política e construir uma chapa presidencial. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) caminha lado a lado com o vice Geraldo Alckmin (PSB-SP), transformando a experiência e a articulação institucional em ativos centrais de campanha.
Do outro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta, a todo custo, manter seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL-AL) nas sombras, ocultando da população não apenas o projeto de país, mas a identidade e o passado de quem estaria a um passo de assumir a vice-presidência do país. A escolha do deputado alagoano ocorreu a menos de 24 horas do anúncio oficial da chapa.
A segurança da experiência institucional
A escolha de Alckmin por Lula foi um movimento estratégico que sinalizou estabilidade, governabilidade e respeito às instituições democráticas. Ex-governador de São Paulo e ex-candidato à Presidência, Alckmin traz para a chapa um perfil técnico, moderado e amplamente reconhecido pelo mercado e pela comunidade internacional.
Durante a campanha, o vice esteve em todos os grandes palcos, concedendo entrevistas, detalhando propostas e demonstrando que a candidatura da coligação “Brasil Pronto Pra Mais” busca unir diferentes espectros políticos em prol do desenvolvimento nacional. Desde 2022, a dupla Lula e Alckmin transmite a mensagem de um governo maduro, focado na reconstrução do país e na proteção da democracia.
Um vice nas sombras e marcado por acusações graves
No campo adversário, a situação é o retrato do amadorismo e da vergonha. A campanha de Flávio Bolsonaro tratou seu candidato a vice como um passivo tóxico, mantendo-o afastado dos holofotes, das sabatinas e dos debates. Ele também não impulsionou publicações nas redes durante os 70 dias de campanha. O motivo dessa ocultação deliberada não é apenas estratégico, mas moral: o nome escolhido carrega a grave acusação de estupro.
Embora o pedido de investigação apresentado ao STF tenha sido arquivado no último 6 de outubro por “falta de elementos indiciários suficientes”, não houve abertura de inquérito contra Gaspar por esse episódio. O caso tramitou em sigilo por considerar o foro privilegiado do parlamentar, e foi baseado em capturas de tela, arquivos de áudio, dados relativos ao endereço eletrônico e à linha telefônica, bem como relatos colhidos no curso das diligências.
O assunto, contudo, continuou a aparecer na disputa eleitoral. Em 23 de outubro, Gilmar também rejeitou uma queixa-crime apresentada por Gaspar contra parlamentares que haviam divulgado a acusação, considerando que as manifestações estavam protegidas pela imunidade parlamentar. O arquivamento foi determinado com base no artigo 18 do Código de Processo Penal (CPP), dispositivo que prevê o encerramento do feito, mas permite a reabertura das investigações caso surjam novas provas substantivas no futuro.
O crime teria ocorrido em Alagoas contra uma menina de 13 anos de idade. Segundo a representação, a violência sexual teria resultado em gravidez e no nascimento de uma criança. Segundo a representação protocolada pelos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Soraya Thronicke (PSB-MS), haveria menção a um repasse prévio de R$ 70 mil e a novas exigências financeiras no valor de R$ 400 mil em troca do silêncio da família, o que configuraria, em tese, a prática de fraude processual para impedir a persecução penal.
Enquanto a campanha tenta varrer o caso para debaixo do tapete e evitar que a imprensa questione o candidato, o eleitorado bolsonarista termina o pleito sem saber ao certo quem é o “número 2” da chapa e muito menos quais são suas qualificações para o cargo.
O risco de um salto no escuro
Votar para Presidente da República é, inevitavelmente, votar também em seu vice. A Constituição é clara: em caso de vacância, impedimento ou ausência do titular, é o vice quem assume o comando da maior economia da América Latina. O eleitor não escolhe apenas quem ocupará a Presidência: escolhe também quem poderá assumir o comando do Executivo federal durante o mandato. Em caso de vacância definitiva, é o vice quem sucede ao presidente.
A gravidade de eleger um candidato que esconde seu próprio vice não pode ser subestimada. O eleitor que apoia Flávio Bolsonaro está, na prática, dando um cheque em branco para um homem que a própria campanha tem pavor de apresentar.
Enquanto Lula e Alckmin oferecem ao país a segurança de um projeto coletivo e a transparência de uma gestão de coalizão, a chapa do PL oferece o sigilo, a omissão e a sombra de um vice marcado por uma das acusações mais repulsivas do código penal.
A questão colocada ao eleitor, portanto, é objetiva: quem está na chapa e quais são sua trajetória, suas posições e sua capacidade de exercer a Presidência caso seja necessário? No domingo, o eleitor brasileiro terá que decidir se o país deve continuar em mãos seguras e experientes ou se deve arriscar um salto no escuro, sem saber quem estará esperando do outro lado.
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