Aos 30 anos, a Fundação Perseu Abramo olhou para a própria história mirando também o futuro do Partido dos Trabalhadores. Na roda de conversa “Rumo aos 50 anos: o PT e a força de um futuro popular”, memória, juventude, luta antirracista e participação das mulheres apareceram não como temas laterais, mas como dimensões centrais para pensar a renovação do partido.
Realizado em 9 de maio, durante a comemoração dos 30 anos da FPA, o debate reuniu o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra, a coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado, Iêda Leal, a secretária nacional de Juventude do Partido dos Trabalhadores, Julia Kopf, e a diretora da Fundação Elen Coutinho, responsável pela mediação. A mesa articulou passado e futuro do PT, resgatando a memória como elemento de formação política dos militantes e do povo brasileiro.
Em sua exposição, Dutra retomou a história da ocupação do Rio Grande do Sul, marcada por lutas violentas e por conflitos raciais e de classe que deram origem à classe trabalhadora e ao Partido dos Trabalhadores. Falou da primeira greve do Rio Grande do Sul, dos portuários, em 1917, reprimida violentamente, e de vários golpes e tentativas de golpe ocorridos na história do Brasil.
“O PT surgiu no meio de uma ditadura, que durou 21 anos, na qual o povo brasileiro sofreu muito, em especial os trabalhadores, de diferentes categorias, no campo e na cidade. Surgiu contestando essa situação, e nós contribuímos para que a ditadura acabasse”, lembrou.
Ao tratar das disputas internas e dos desafios de atualização do partido, Dutra defendeu que as lutas sociais contemporâneas não sejam tratadas como temas isolados. Para ele, as lutas antirracismo, LGBTQIA+, das mulheres camponesas e urbanas e da juventude do campo e da cidade, levadas por importantes setores da sociedade e presentes na vida da militância, podem e devem fecundar o partido, sem ficarem restritas a grupos que têm isso como natureza de vida e luta no cotidiano.
“Essas questões são sérias e elas não podem estar numa bolha dentro do partido, têm que ser discutidas. Assim como temos que discutir o funcionamento das tendências partidárias internas, que são do DNA do PT, e sua representação. Hoje as tendências mais fortes são as que têm mais parlamentares, vereadores, deputados estaduais no Congresso Nacional, cargos nos executivos, nos gabinetes. Não é mais aquela discussão de temas, pensando num mundo diferente, de justiça, igualdade e fraternidade. Elas poderiam ser fontes para fazer essa reflexão”, pontuou.
Renovar o partido por dentro
A crítica mais direta à composição histórica da Fundação veio de Iêda Leal, que apontou o fato de a Fundação Perseu Abramo só ter sido dirigida por homens até hoje. “Precisamos dizer que para mulheres como nós, negras, as oportunidades chegam mais tarde na vida. São 48 anos do Movimento Negro Unificado, 46 anos do Partido dos Trabalhadores, 30 anos da Fundação. E fico pensando quais contribuições podemos oferecer para o fortalecimento do nosso projeto? Estamos envelhecidas, mais sábias, mais potentes em defender o nosso país. Penso que se justifica, quando não somos ouvidas, a gente criar locais pra discutir. Então as mulheres se juntam ali, os gays aqui, os indígenas, ambientalistas e jovens em outro lugar porque não há espaço pra gente fazer a luta unificada”, afirmou.
Julia Kopf trouxe a perspectiva da juventude petista sobre o desafio de fazer com que o PT continue fazendo sentido para os jovens e mantenha viva a chama do socialismo. “Olívio [Dutra] fez um resgate histórico e conseguimos entender que aquele motivo e o ambiente que deram origem ao partido ainda estão em alta: a luta de classes e a necessidade de que a classe trabalhadora amplie os direitos democráticos no Brasil.”
Ao discutir a relação da juventude com o mundo do trabalho, Julia também contestou leituras simplificadas sobre os empregos formais e a CLT. “Muitos dos companheiros acreditam e reproduzem que a juventude não quer mais trabalhar pelo regime de CLT, mas a realidade é que ninguém quer ter um trabalho no qual não vê sentido, que é precarizado. Ninguém quer bater ponto para fazer reuniões que poderiam ser um e-mail, nem ter um chefe abusivo que não respeita ninguém no ambiente de trabalho. As pessoas não querem passar duas horas no transporte público para trabalhar no presencial. Não acredito que a gente, que é do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, tem que aceitar que a CLT seja um regime de trabalho sem defeitos e que a gente não pode, inclusive, melhorar”, afirmou.
O integrante do Conselho Curador da FPA, Ademário Souza Costa, ampliou o debate ao questionar uma leitura da história da classe trabalhadora centrada apenas no período posterior à escravidão. Segundo ele, o PT apresenta uma formulação que pressupõe que a luta política da classe trabalhadora tenha se iniciado no fim da escravidão, com a imigração europeia, o trabalho assalariado, o anarco-sindicalismo e as greves operárias, até a constituição do PT.
“Essa ideia cria um hiato histórico no país, porque é como se não houvesse resistência indígena e negra, como se não tivesse havido Cabanagem, Balaiada, Sabinada, a Confederação dos Tamoios, a Confederação do Equador, a Revolta dos Malês, o Quilombo dos Palmares. E se a gente não pega essa história, que é fonte inspiradora, é impossível fazer uma análise mais profunda sobre a escravidão negra como base para a acumulação primitiva do capital, e se perde a possibilidade de aprofundar a formulação”, afirmou.