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‘‘Se os EUA atacarem Cuba militarmente, Cuba resistirá e lutará por sua independência’’

EMBAIXADOR VICTOR CAIRO. “Cuba não quer uma guerra, Cuba quer paz e vai defender-se”. Foto: Donavan Sampaio (JAV/DF)

O jornal A Verdade entrevistou, com exclusividade, o embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, na sede da Embaixada, em Brasília. Nascido em Havana, em 1978, Victor graduou-se em direito pela Universidade de Havana, em 2003.  Diplomata de carreira desde 2006, era embaixador de Cuba no Panamá (cargo que assumiu em 2022), antes de ser transferido para o Brasil, em outubro de 2025.

“É um prazer estar aqui com A Verdade. Um veículo de imprensa muito importante para a esquerda brasileira e um veículo esquerda muito importante num momento tão especial como está vivendo a humanidade. Com tantas ameaças de guerras, bloqueios, com tanta complexidade na situação internacional”, afirmou o embaixador.

Vinícius de Lima e Redação


A Verdade – Cuba vem sofrendo diariamente uma crise energética de abastecimento causada pelo aumento do bloqueio econômico e social por parte dos Estados Unidos, que já dura mais de seis décadas. Como o governo trabalha junto à população para atravessar esse duro período?

Víctor Cairo – Estamos falando em um momento muito especial para Cuba. O Governo dos Estados Unidos pretende derrotar a Revolução Cubana, empregando muitas ações contra a população cubana. Quando os Estados Unidos perseguem um barco com petróleo que vai para Cuba, está proibindo, na prática, que a população receba serviços básicos de saúde, educação, transporte público. Nosso desenvolvimento como país está em perigo.

O Governo dos Estados Unidos pretende incitar revoltas públicas com os apagões de mais de 14, 15 horas, até 20 horas em algumas partes do país. A população tem dificuldades para conservar alimentos, ir ao trabalho, preparar as crianças para irem à escola.

Eu sempre digo que, quando um médico cubano, atendendo num hospital em Cuba, tem que selecionar qual doente vai oferecer medicamentos, remédios, porque só tem um remédio, isso é um crime. É um genocídio o que está acontecendo em Cuba por causa do Governo dos Estados Unidos.

O plano de ataque ao sistema energético cubano é eliminar a capacidade de Cuba de ter renda. É por isso que é muito importante também que o povo do Brasil saiba que esses ataques dos Estados Unidos contra Cuba, contra as brigadas médicas cubanas no exterior – médicos cubanos que atendem pessoas que não recebem saúde do Estado, ou que seus Estados não têm capacidade para oferecer saúde – são um ataque também ao internacionalismo cubano, à solidariedade de Cuba. São um ataque à possibilidade que o sistema de saúde cubano tenha recursos financeiros para poder se aperfeiçoar e se dedicar ao desenvolvimento do nosso país.

Os Estados Unidos atacaram o sistema de investimentos em Cuba com as últimas medidas adotadas em 1º de maio, enquanto nossa população estava celebrando o Dia Internacional dos Trabalhadores. Aprovaram um novo decreto presidencial que impõe sanções contra qualquer empresário no mundo que tenha relações com Cuba. É uma medida muito cruel, porque está tratando de desconectar a nossa ilha da economia mundial. Que país é capaz de se desenvolver sem estar conectado ao resto do mundo? Não é possível.

E Cuba está enfrentando essa complexa situação, que é muito difícil, sempre com apoio da forte relação entre o governo e a população. Temos um plano para enfrentar emergências, que permite nos dedicarmos aos aspectos fundamentais da sociedade cubana, como: conservar a estabilidade do sistema energético cubano e ter acesso ao desenvolvimento de combustível próprio para depender menos da importação de combustíveis.

É por isso que uma das prioridades também é fazer uma transição energética e depender menos do combustível fóssil. Cuba produz seu próprio combustível, mas não o produz na quantidade de que sua população necessita. Nosso povo precisa de mais de 3.000 megawatts diários e Cuba tem capacidade de produzir combustível para 30% dessa demanda. Então precisamos importar o restante do combustível. Nesse sentido, se não temos capacidade de cobrir os 70% restantes, a indústria para, a economia para. Por isso, o Governo está aplicando um plano de emergência para enfrentar com êxito essas prioridades.

Outra prioridade para Cuba é se defender. Nesse momento, a ameaça de uma guerra, de uma ação militar contra Cuba, é mais que evidente. Os Estados Unidos estão criando todo um conjunto de condições para convencer a comunidade internacional de que Cuba é uma ameaça para eles. Isso não é real. Isso é falso! Cuba não é uma ameaça para os Estados Unidos.

As últimas notícias são de que Cuba tem drones e que os EUA têm se preocupado com isso. Cuba tem direito a defender-se. Cuba tem direito à legítima defesa se é atacada. Cuba tem direito a defender sua soberania, sua liberdade, sua nação. A comunidade internacional reconhece que os Estados Unidos são o país agressor, e Cuba é o país historicamente agredido. Nosso país foi vítima de terrorismo. Nosso país foi vítima de armas químicas. Nosso país foi vítima de ataques armados e de agressões militares. Nosso país foi vítima de ataques biológicos. Quando Cuba realizou um ataque contra os Estados Unidos? Nunca.

Então, essa narrativa de que Cuba é uma ameaça quer convencer a comunidade internacional de que uma guerra contra Cuba é necessária. Cuba tem planos para emergências, porém também tem planos para se defender. E é legitimidade nossa tomar as medidas necessárias para nos defendermos de um ataque militar. Nosso povo lutará. Nossa defesa é prioridade.

Outra prioridade para nosso Governo nessas circunstâncias junto ao povo é a produção de alimentos. Estamos lutando, buscando caminhos, criando alternativas que permitam uma melhor produção e distribuição de alimentos.

Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer profundamente ao Governo do Brasil e aos movimentos camponeses, ao MST, em particular, que têm trabalhado com Cuba e realizado uma solidariedade efetiva, enviando sementes, maquinário e insumos, dos quais nós precisamos para a produção de alimentos nessas circunstâncias.

Essa é outra das prioridades para nosso país. Estamos nessa transição energética, realizando a instalação de parques fotovoltaicos para utilizar mais energia solar, pois o bloqueio não chega, até agora, a tapar o sol. Portanto, é uma oportunidade que Cuba tem, que temos que fazer. É custosa, não é gratuita, mas faz parte de nossa política de transição energética para poder enfrentar esta situação complexa.

As ameaças do presidente estadunidense Donald Trump contra a soberania de Cuba chegaram ao nível mais crítico desde a vitória da Praia Girón em 1961. Como o senhor definiria o atual momento para o povo e o governo cubano?

A situação é muito complexa, mas ninguém deve duvidar da capacidade do povo cubano de defender sua soberania. Cuba não quer uma guerra, Cuba quer paz. Mas temos que ter claro que uma agressão contra Cuba, um momento como este que estamos vivendo, muito parecido, de fato, a 1961, é o momento de defesa da nossa soberania, de nossa autodeterminação e de nossos princípios de independência. E Cuba vai defender-se.

Os setores mais reacionários da extrema-direita dos Estados Unidos nunca compreenderam nem aceitaram nossa capacidade e independência. Nunca aceitaram nossa situação política. Nunca aceitaram nossa capacidade, nossa soberania, nossa sociedade. Essa é uma sociedade própria. É uma sociedade que os cubanos decidiram ter. Não é uma sociedade imposta pelos Estados Unidos. 

Não somos ingênuos, sabemos o custo militar que tem para Cuba. Uma agressão militar teria consequências muito graves, que não queremos, que não é nossa vontade. Mas se o diálogo não é possível… E um diálogo de iguais, não um diálogo com imposição. Se o diálogo não é possível, nosso povo está se preparando para lutar. 

Alguns cubanos de Miami estão clamando que o Governo dos Estados Unidos ataque Cuba, mas esses cubanos não têm família em Cuba. Quem poderia defender um ataque contra sua própria família em Cuba?

E será um crime atacar uma população que quer ser livre, que quer se defender, que quer lutar. Mas não será uma luta convencional, será uma luta de guerrilha, uma luta do povo contra exércitos. Como travar uma guerra contra um povo? Como os Estados Unidos vão travar uma guerra de modo que Cuba não se torne um novo Vietnã?

Quem pode prever o que ocorrerá em Cuba se realizarem um bombardeio massivo, matando a nossa população? As pessoas vão se defender. Então, nessa situação, sem um ânimo belicista, sem um ânimo de guerra, sem um ânimo de triunfalismo, a Casa Branca tem que saber que uma agressão contra Cuba vai enfrentar a determinação de todo um povo que vai lutar e que vai defender-se. Essa é a sensação que Cuba tem hoje.

Mas Cuba quer criar uma situação diferente. Queremos dialogar. Mas, se esse diálogo não for possível e se os Estados Unidos atacarem Cuba militarmente, Cuba resistirá e lutará por sua independência, por sua soberania e por sua autodeterminação. Isso é um princípio básico.

Até um suposto processo judicial contra o comandante Raúl Castro foi cogitado. Os líderes da Revolução de 1959 nunca serão tolerados pela burguesia dos Estados Unidos?

É uma boa pergunta. Temos que levar em conta a história das relações bilaterais entre Estados Unidos e Cuba. A máquina midiática contra Cuba nos Estados Unidos está divulgando muitas coisas. Cuba tem muitas oportunidades de falar com representantes de organismos internacionais, com líderes de Estado, de governo, com movimentos de solidariedade, com figuras e personalidades dos próprios Estados Unidos. E, quando se fala com Cuba, compreende-se o valor histórico da luta do povo cubano.

A Revolução Cubana não é resultado de um grupo de elite que decidiu tomar o poder, é um processo histórico. E esse processo histórico tem em conta todo o desenvolver da luta de Cuba por sua independência e dos interesses dos Estados Unidos de apoderar-se de Cuba. A história de Cuba como nação está, inevitavelmente, muito ligada aos Estados Unidos.

Em 1902, um senador dos Estados Unidos, defensor da doutrina Monroe, expressou no Senado: “Nós queremos Cuba, mas sem cubanos”. Cuba não tinha socialismo, Cuba não era um país comunista, não era um país que ameaçava os Estados Unidos. Cuba acabava de sair de uma guerra, na qual os Estados Unidos interromperam a vitória de Cuba. Essa é uma posição que responde mais à doutrina religiosa, fundamentalista, do que “somos nascidos para governar a região da América Latina e o Caribe e tudo é nosso”. Isso é uma posição da elite dos Estados Unidos.

E isso, com certeza, estamos vendo hoje com Trump e com Marco Rubio. Pois todo mundo fala de Trump, e temos que falar também de Marco Rubio, que é um representante dessa elite política estadunidense que vê a América Latina e o Caribe como o destino manifesto. “Estados Unidos são donos da América Latina e do Caribe”, mas isso não é real. E isso é o fundamentalismo, essa é uma posição do fascismo dos Estados Unidos.

Essa é parte da estratégia de criar, rever, mudar e trocar a história de Cuba, de querer dizer que Cuba é parte dos Estados Unidos. É por isso que o presidente Trump publica um post onde põe os países da América Latina e do Caribe com a bandeira Estados Unidos. Isso faz parte da poderosa motivação que existe por trás do Governo dos Estados Unidos contra nossos países.

Este mesmo senador de 1902 disse também que a lei e a ordem estadunidenses, assim como sua civilização, serão implantadas nas praias que até então foram sangrentas e ignorantes, e serão arrebatadas e iluminadas pela mão de Deus.

Existe uma base filosófica complexa nos Estados Unidos, do Governo dos Estados Unidos, que trata a América Latina e o Caribe como se fôssemos parte deles, porque se trata de destino manifesto. Não por acaso, o presidente Trump diz que esse é o Corolário Trump, da doutrina Roosevelt.

Amigos, estamos em um momento muito especial da história das relações entre Cuba e Estados Unidos e todas essas notícias que se estão divulgando pelo maquinário de Miami, pelo maquinário dos Estados Unidos, com notícias sobre supostos julgamentos e outras coisas que não têm efeito real.

Nós, cubanos, vivemos a maior parte de nossas vidas sob o bloqueio dos Estados Unidos. Que terrorista de origem cubana que viveu nos Estados Unidos foi sancionado pela lei americana? Posada Carriles, um terrorista notório nos Estados Unidos, um agente da CIA. Ele nunca foi sancionado pelos Estados Unidos. Ele foi protegido pelas mesmas pessoas que hoje querem atacar Cuba. Portanto, não estamos falando de fatos concretos, estamos falando de mentiras, de histórias, de criação de narrativas, de imposição de processos judiciais para criar um ambiente de agressão contra Cuba em todos os sentidos.

Em meio a tudo isso, como estão os preparativos para a celebração do centenário de nascimento do comandante Fidel Castro?

Tem que acontecer, é o comandante. Para nós, é um prazer. Fidel é muito grande. Fidel não é só de Cuba, Fidel é do mundo. E Fidel é do mundo porque ele tem a capacidade de falar sobre Cuba e de explicar o projeto de Cuba ao mundo. Não é possível, no centenário de Fidel, em condições de muitas restrições para Cuba, deixar de comemorar e festejar Fidel, 100 anos de seu nascimento.

Estamos celebrando, neste momento, o 40° aniversário da retomada das relações bilaterais entre Cuba e Brasil. E temos falado das visitas de Fidel ao Brasil. Dos encontros de Fidel com personalidades brasileiras. Fidel falava com todo mundo no Brasil. E temos conversado também sobre os 120 anos de estabelecimento das relações bilaterais.

Nós gostamos de falar dos 40 anos da retomada das relações, mas é um importante momento quando Fidel visita o Brasil. Sobre o famoso livro de Frei Betto com Fidel, Fidel e a Religião, que mudou um pouco a visão do Brasil e do mundo religioso sobre a Revolução Cubana.

Então, em um momento como esse, toda pessoa de bem, toda pessoa ética, não pode permitir que, nos 100 anos de Fidel, o Governo dos Estados Unidos cometa um crime contra a sociedade cubana.

E Fidel inspira também. Todos os dias, quando nos levantamos e saímos para lutar por um mundo melhor, estamos lutando por Fidel. Isso que Fidel nos deu respeito, soberania, solidariedade. Temos que lembrar também que Fidel, no Brasil, alertou a humanidade da importância de enfrentar a mudança climática, quando, em 1992, disse que uma espécie está a ponto de desaparecer, a espécie humana. E é por isso que nós temos uma posição clara contra o capitalismo. É uma posição de que, se o capitalismo segue como sistema predominante na nossa sociedade, estamos destinados a morrer como sociedade humana.

Não é possível continuar consumindo e enfrentando tanta desigualdade. Um pequeno grupo da população internacional tem muito mais do que a maioria da população pobre, que não tem acesso à educação, que não tem acesso à saúde, que não tem acesso à globalização que se fala no mundo. Como se pode falar de globalização se na África muitas pessoas não têm escolas nem eletricidade?! Como se pode falar de globalização se o mundo permite que Estados Unidos cometam um genocídio contra o povo cubano?!

E então Fidel nos dá, neste mundo tão complexo, ferramentas, nos dá o veículo, para poder, com sua obra, com seu pensamento, entender a realidade que estamos vivendo.

Hoje eu falei com um amigo que me enviou um artigo sobre a vitalidade do marxismo no mundo. Ele disse que muitas pessoas no mundo não compreendem o presente, que não compreendem a realidade. Respondi que nós preferimos ser do grupo dos que, todos os dias, lutam por um mundo melhor, por um mundo mais justo, por um mundo organizado de maneira diferente de como está hoje. E isso é o comunismo. 

É lutar por igualdade social, do povo, do mundo de hoje, de todas as pessoas. Sem discriminação, sem fascismos. Como podem os Estados Unidos fazerem guerra contra um povo que só está dedicado a educar, a ensinar, à solidariedade com os povos do resto do mundo?! Esse é o perigo que os Estados Unidos veem em Cuba. O farol da dignidade. E esse farol de dignidade é Fidel.

Fidel que nos mostrou esse caminho, essa pequena ilha se converteu em um farol da dignidade. Por isso, sempre a verdade – e vocês têm um periódico que se intitula assim: A Verdade –, por isso a revolução comunista e Fidel significa essa verdade. Contra a mentira, contra a falsidade, contra a agressão dos Estados Unidos. É um momento de celebração para nós. Vamos fazer muitas atividades em Cuba. Vai ocorrer um evento maior, com convidados internacionais, muitos brasileiros estão se preparando para viajar e será um momento especial para nosso povo.

E se Cuba for atacada militarmente antes de agosto deste ano – inclusive, em combate –, nós vamos celebrar Fidel. Fidel inspira. Fidel é luta. E não só a luta do povo cubano, mas a luta do povo latino-americano, caribenho e de todos os povos do mundo.

Matéria publicada na edição impressa nº 335 do jornal A Verdade